Com a chegada do inverno no Sul, empresas precisam olhar para frio, chuva, deslocamentos, jornadas e saúde mental como fatores que podem impactar a segurança do trabalho e o GRO da NR-1.
O inverno no Sul do Brasil costuma chegar com mais do que baixas temperaturas. Ele traz chuva, umidade, frentes frias, geadas, queda de temperatura, dificuldade de deslocamento, aumento de doenças respiratórias e, em muitos casos, uma pressão silenciosa sobre trabalhadores que precisam continuar produzindo mesmo quando o ambiente já não oferece as mesmas condições de segurança, conforto e estabilidade.
Para muitas empresas, o frio ainda é tratado como um incômodo passageiro. Mas, do ponto de vista da saúde e segurança do trabalho, ele pode se transformar em um fator concreto de risco ocupacional.
E, com a atualização da NR-1, esse olhar precisa ficar ainda mais atento.
A partir de 26 de maio de 2026, a nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 passa a incluir expressamente os fatores de Riscos Psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO. Isso significa que as empresas deverão considerar, dentro da sua Gestão de Riscos, não apenas os riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes, mas também as condições de organização do trabalho que podem contribuir para adoecimento mental, sofrimento emocional e sobrecarga psicossocial.
O clima mudou. O trabalho também precisa se adaptar.
Nos últimos anos, eventos climáticos extremos deixaram de ser uma exceção distante. Enchentes, temporais, frio intenso, calor extremo, estiagens e mudanças bruscas de temperatura passaram a afetar diretamente a rotina das empresas, principalmente no Sul do país.
Segundo o INMET, o trimestre de maio a julho de 2026 indica tendência de chuvas acima da média no Rio Grande do Sul, em um cenário associado ao aumento da probabilidade de formação do El Niño ao longo do ano. O instituto também apontou probabilidade superior a 60% para o estabelecimento do fenômeno no trimestre maio-junho-julho e crescimento dessa chance nos meses seguintes.
Na prática, isso reforça um alerta importante: empresas não podem mais tratar o clima como algo externo à gestão. Quando a chuva impede o deslocamento, quando o frio agrava doenças respiratórias, quando a umidade afeta estruturas, quando a operação exige presença física em condições adversas, o clima entra no trabalho.
E quando entra no trabalho, precisa ser gerenciado.
Frio, chuva e pressão: onde nasce o Risco Psicossociais?
Os Riscos Psicossociais não estão apenas em casos extremos de assédio, violência ou jornadas abusivas. Ele também pode surgir de falhas na organização do trabalho, excesso de exigências, ausência de apoio, baixa previsibilidade, pressão temporal intensa, sobrecarga e falta de controle sobre a própria rotina.
A Cartilha Amarela do Ministério do Trabalho e Emprego explica que os fatores de Riscos Psicossociais surgem da interação entre o indivíduo e as condições, a organização e a gestão do trabalho, com potencial de causar danos físicos, mentais ou sociais. Entre os exemplos, aparecem pressão temporal intensa, baixo controle sobre o trabalho combinado com altas demandas, excesso de exigências e falhas na organização do trabalho.
No inverno, esses fatores podem aparecer em situações muito concretas:
Quando o trabalhador precisa sair de casa em meio a temporais, alagamentos ou frio extremo, sem orientação clara da empresa.
Quando há cobrança por pontualidade mesmo diante de vias bloqueadas, transporte reduzido ou risco no deslocamento.
Quando trabalhadores externos permanecem expostos ao frio, à chuva e ao vento sem pausas, abrigo, vestimenta adequada ou revezamento.
Quando ambientes internos ficam fechados, mal ventilados, frios ou úmidos, aumentando desconfortos físicos e riscos respiratórios.
Quando a empresa ignora sinais de exaustão, ansiedade, irritabilidade, medo ou queda de concentração após eventos climáticos ou períodos prolongados de instabilidade.
Quando a operação segue normalmente, mas as pessoas já não estão em condições normais.
Esse é o ponto central: a NR-1 não exige que a empresa controle o clima. Mas exige que ela gerencie os riscos ocupacionais existentes no trabalho, inclusive aqueles agravados pelas condições reais em que o trabalho acontece.
O inverno também afeta a saúde física
Além da saúde mental, o inverno aumenta a atenção sobre doenças respiratórias e condições agravadas pelo frio. O Ministério da Saúde recomenda medidas simples, mas importantes, como manter ambientes arejados, hidratação, cuidado com roupas e cobertores guardados, além de atenção especial a pessoas mais vulneráveis.
Em situações de frio intenso, o Ministério da Saúde também orienta limitar atividades ao ar livre nos períodos mais frios, especialmente para grupos vulneráveis, e manter cuidados para preservar a circulação e a temperatura corporal.
No ambiente corporativo, isso se traduz em decisões práticas: avaliar condições térmicas, ventilação, uniformes, pausas, deslocamentos, atividades externas, comunicação preventiva e planos de contingência.
Para trabalhadores em portarias, obras, transporte, limpeza, manutenção, logística, campo, indústria, atendimento externo e atividades em áreas abertas, o frio não é apenas desconforto. Ele pode impactar atenção, mobilidade, força, disposição, segurança e saúde.
Saúde mental no trabalho já é um dado, não uma percepção
O tema também ganha urgência porque os afastamentos por transtornos mentais continuam crescendo no Brasil. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15,66% em relação a 2024, quando foram concedidos 472.328 benefícios. Entre os principais motivos aparecem transtornos ansiosos e episódios depressivos.
Esse dado mostra que saúde mental no trabalho não pode mais ser tratada como pauta subjetiva, secundária ou restrita ao RH. Ela se tornou uma frente estratégica de gestão, prevenção, conformidade e sustentabilidade empresarial.
Quando o inverno intensifica deslocamentos difíceis, medo de perdas, insegurança financeira, queda de produtividade, pressão por presença, absenteísmo e sobrecarga de equipes reduzidas, ele também pode agravar fatores psicossociais já existentes.
A empresa que não olha para isso corre dois riscos: o risco de adoecer pessoas e o risco de não conseguir comprovar que gerencia adequadamente as condições de trabalho.
O que a NR-1 muda na prática?
A NR-1 estabelece diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e para o Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR. Com a atualização, a organização deve considerar as condições de trabalho nos termos da NR-17, incluindo os fatores de Risco Psicossociais relacionados ao trabalho.
Isso não significa que toda empresa precisará transformar o PGR em um diagnóstico clínico de saúde mental. A avaliação psicossocial não é sobre investigar a vida pessoal do trabalhador, nem expor informações sensíveis, nem produzir laudos individuais de sofrimento emocional.
O foco correto é outro: identificar como a organização do trabalho pode gerar ou agravar riscos.
No contexto do inverno, isso inclui observar perguntas como:
A empresa possui orientação clara para dias de temporais, alagamentos, frio extremo ou impossibilidade segura de deslocamento?
Trabalhadores externos têm pausas, abrigo, vestimentas adequadas e medidas de proteção?
Ambientes fechados mantêm ventilação e condições mínimas de conforto?
Gestores sabem como agir diante de trabalhadores afetados por eventos climáticos?
Há plano para reorganizar jornadas, escalas e entregas em períodos de crise?
A cobrança por produtividade considera condições reais de operação?
Existe canal de escuta, acolhimento e registro de situações críticas?
A resposta a essas perguntas ajuda a empresa a sair da improvisação e entrar em uma lógica de prevenção documentada.
O erro é esperar maio chegar
A fase educativa da NR-1 criou uma janela de adaptação, mas essa janela está acabando. O prazo de 26/05/2026 não deve ser lido como uma data distante, e sim como o limite para que a empresa já tenha amadurecido seus processos, registros, critérios, metodologia e plano de ação.
Empresas que deixarem para tratar fatores psicossociais apenas perto da fiscalização tendem a enfrentar três problemas: falta de diagnóstico consistente, dificuldade de engajar lideranças e ausência de documentação robusta para comprovar as medidas adotadas.
A adequação precisa começar antes porque envolve cultura, rotina, comunicação, treinamento, levantamento de riscos, priorização de ações e acompanhamento contínuo.
E o inverno é uma oportunidade concreta para observar como a empresa se comporta diante de fatores externos que impactam diretamente o trabalho.
Como a empresa pode se preparar agora?
O primeiro passo é reconhecer que frio, chuva e instabilidade climática não são apenas assuntos operacionais. Eles também fazem parte da gestão de riscos quando afetam a forma como o trabalho é realizado.
A partir disso, a empresa pode adotar medidas como:
Mapear áreas, cargos e atividades mais expostos ao frio, chuva, umidade, deslocamentos e trabalho externo.
Revisar orientações para dias de eventos climáticos, com critérios claros sobre presença, atraso, home office, remanejamento ou suspensão de atividades quando necessário.
Treinar lideranças para agir com previsibilidade, bom senso e responsabilidade em situações climáticas adversas.
Avaliar pausas, abrigo, uniformes, EPIs, hidratação, ventilação e conforto térmico.
Criar canais de comunicação rápida para alertas, mudanças de escala e orientações preventivas.
Registrar ocorrências, decisões e medidas adotadas, fortalecendo a rastreabilidade da gestão.
Integrar os fatores psicossociais ao GRO/PGR, com metodologia adequada, plano de ação e acompanhamento.
Mais do que cumprir a norma, essas medidas ajudam a proteger pessoas, reduzir improvisos, evitar conflitos, fortalecer a cultura preventiva e dar mais segurança jurídica para a empresa.
Inverno seguro é inverno planejado
O frio não pode ser usado como desculpa para negligenciar a operação. Mas também não pode ser ignorado como se não tivesse impacto sobre o trabalhador.
A empresa que amadurece sua gestão entende que segurança do trabalho não acontece apenas dentro de documentos. Ela acontece na prática: na decisão sobre uma jornada em dia de temporal, na comunicação com quem está na rua, na escuta de quem está sobrecarregado, no cuidado com quem trabalha exposto, no registro das medidas adotadas e na prevenção antes do problema se transformar em afastamento.
Com a chegada da nova NR-1, esse cuidado deixa de ser apenas uma boa prática. Ele passa a fazer parte de uma gestão ocupacional mais completa, mais humana e mais responsável.
O inverno está chegando. A NR-1 também.
A pergunta que fica é: sua empresa já está preparada para gerenciar os riscos que o clima revela?
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